OS ARHUARCOS

Moisés Ahruarco ao lado de representantes de povos da Amazônia brasileira
Foto: PH Nagô

“Bom dia a todos, avós e futuras avós também. Nós somos povos originais da Colômbia, da Serra Nevada de Santa Marta. Somos um povo muito pequeno, que se manteve, da parte Norte de Colômbia. Somos descendentes da Grande Confederação que se chamou Tairona. Somos quatro grupos étnicos: os Arhuacos (que somos nós), os Coguis, os Arçários e os Cancuamos, os quatro povos da serra. Nós compartilhamos uma só filosofia, só uma forma de vida. Não somos religiosos, cremos no direito natural, vivemos de acordo com a natureza. Fomos colocados na Serra Nevada para vigiar e cuidar do mundo, para cumprir nossa missão. Somos guardiões.

Vou explicar um pouco da nossa gênesis. Nós trazemos ou temos uma lei de origem, a Lei dos primeiros pais. Dizem que antes, quando tudo estava escuro, quando o mar estava por todas partes, não havia sol, nem lua, nem gente, não tinha nada. Mas a mãe, que era o mar, estava por todas as partes. E somente era pensamento e memória do que iria ser. E então nós viemos da nova profundidade, da nova escuridão. Para nós, a escuridão não é o mal como é para o ocidente, é o pensamento e a memória. Nós dizemos que somos os irmãos maiores, porque nós viemos antes que o sol aparecesse. Nossos irmãos não indígenas apareceram quando o sol apareceu. Por isso, são irmãos menores. Assim diz a história.

A Serra Nevada está localizada em três distritos e tem uma característica especial:  é um resumo dos cosmos, com 4 andares térmicos. Temos cuidado com eles, desde a parte mais baixa até a parte mais alta. Temos os caminhos com pedras, que comunicam de um lugar para outro e servem para que a terra não seja erodida. Temos aqui fotografias dos líderes espirituais. Os líderes são os grandes expoentes da cultura. Eles guardam a sabedoria e não a mitologia. Guardam nossa gênese. Ainda que o Ocidente diga que é um mito, nós vivemos em uma permanente relação com a natureza. Nossa religião é a água, as pedras, as cocas, as montanhas, o sol, tudo que nos circunda. Os Mamos dizem, nossos mamos são as montanhas, nossos mamos são as águas, as sagas também dizem, nossas sagas são a água, as plantas, a terra, tudo o que nos circunda e nos comunica desde o coração da terra até o coração do céu. Se nós perdermos esse conceito, essa lei de origem, seremos pessoas mortas que vivem, mortos-vivos. Por isso, eu acredito que, se aqui estamos reunidos, temos que buscar a Lei de Origem. Se não a encontramos, tratemos de ir à natureza. Porque em nós mesmos não a vamos encontrar. A verdade está na natureza.

Também quero contar e compartilhar com vocês que nós não estamos isentos de problemas. Temos muitos problemas e algumas vezes perdemos por estar batalhando com os conflitos da destruição e queima das florestas e a luta contra o narcotráfico. Que o que mais se conhece no mundo agora é a nossa planta sagrada, a folha da coca. Agora o mundo a sataniza. Sataniza nossa planta sagrada, que é a folha de vida de todos os índios americanos ou pré-americanos. Nós seguimos com a tradição sem perder nossa herança cultural. Temos a nossa língua, temos o nosso costume, temos o território, somos como uma semente endêmica. Somos daqui e não de outro lugar. Então, é nossa tarefa convencer àqueles que não estão convencidos de que hoje existimos, não somos peças de museu”.

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