A ÁGUA NA TRADIÇÃO AFRICANA

Bernadette Rebienot

“Eu quero falar sobre a água da maneira africana, em como os africanos pensam a respeito da água. A água e o homem têm uma história de amor e é uma história que dura a vida inteira. O primeiro espelho do homem é a água e nos ensinaram como a água pode ser um espelho. Mesmo ainda pequeninos nos levavam até os rios, principalmente quando o sol brilhava e nos pediam para olhar para a água. Nós víamos o nosso próprio rosto. A água para nós, mulheres, tem uma grande história, mas uma parte da história é contada de maneira secreta. Nunca se pergunta a uma mulher de manhã se ela se lavou, mas se pergunta se ela disse bom dia à água. E se a pessoa já se lavou ela diz que já deu bom dia  à água. Há diferentes tipos de água: da chuva, dos rios, do mar, doces, salgadas, que dormem (paradas), amareladas, dos cipós, que a gente bebe.

As mulheres aprendem a dar a luz. Antes de dar a luz elas fazem um retiro com a água. Na minha época, esse retiro durava dois meses, hoje dura apenas duas semanas porque as mulheres trabalham. A mulher grávida era tratada com água de uma maneira específica. As parteiras davam banho nas mulheres grávidas, cada parte do seu corpo, da cabeça aos dedos dos pés. Alguns lugares eram lavados com água quente e outros com água fria. E o ventre de uma mulher que tinha acabado de dar a luz era um tesouro, e não se podia tocar o ventre de uma mulher de qualquer maneira, usava-se uma escovinha, uma vez com água fria, outra com água quente. Nesse momento, o segredo da água era revelado à mulher.

Tenho uma outra pequena história para contar, que é pessoal. Eu tinha somente 22 anos quando meu primeiro filho nasceu. O trabalho de parto durou mais de um dia e meio e como disse a parteira, ele nasceu dentro da bolsa de água. E ele estava dentro dessa bolsa e se mexia como um peixinho. Quando olhei, pensei: o que é isso na minha barriga? O bebê ficou esperando dentro da bolsa d’água até encontrarmos alguém que soubesse romper a bolsa d’água. A água devia ser guardada. Somente quando o bebê saiu de sua bolsa d’água, ele deu seu primeiro grito. Duas anciãs lavaram a criança e três meses depois, uma das mães que havia me ajudado a dar a luz disse que a criança tinha ido falar com ela. Achei estranho porque a criança só tinha três meses. Ela disse que a criança tinha lhe dito que o nome que lhe tinham dado não era o verdadeiro e que seu nome verdadeiro era “o lugar onde se faz muita música e muita alegria, e que ele tinha vindo desse lugar”. Hoje essa criança é um grande curandeiro. Ele nasceu com esse dom dentro da sua bolsa de água. Todas as mulheres têm uma missão com a humanidade, uma responsabilidade com a humanidade”.

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